MINHAS METAS
  • Compreender a evolução da escrita.
  • Identificar as diferentes formas de expressão escrita.
  • Comparar diferentes sistemas de escrita.
  • Reconhecer registros escritos como fontes históricas.
  • Relacionar a escrita com o desenvolvimento das civilizações.
  • Perceber os jogos de poder que envolvem o domínio da escrita.
  • Entender os impactos causados pela ampliação da cultura escrita.

Inicie sua Jornada

Você já parou para pensar quantas vezes ao dia recorre ao recurso da escrita para se comunicar? Essa prática, tão difundida e necessária na sociedade atual, foi desenvolvida por sociedades que vieram muito antes de nós. Desde então, ao fazer uso dessa criação, descrevemos, inventamos e transformamos o mundo por meio da palavra escrita. Com o advento das tecnologias digitais, a cultura escrita ganha uma nova dimensão, de modo que se torna uma das bases da comunicação e difusão de informação na contemporaneidade. 

No entanto, precisamos estar atentos ao fato de que, mesmo com tamanho alcance, nem todos os sujeitos hodiernos têm acesso à alfabetização, assim como a aproximação à informação por meio da escrita não resulta em leitores que exerçam o ato com profundidade, mas, sim, de forma fragmentada e descontínua, como aponta o historiador Roger Chartier em entrevista para Oliveira (2021).

Embora a cultura escrita seja um marco na história humana, não significa que só haja história em sociedades que produziram escrita. O período denominado tradicionalmente de pré-história, ou história pré-escrita, coloca essa invenção como um divisor de águas no percurso dos seres humanos neste planeta. Apesar disso, não é correto pensar que só existam possibilidades de contar a história de sociedades que desenvolveram algum tipo de registro escrito. Houve muitos povos e civilizações no decorrer dos tempos que não desenvolveram uma forma de escrita e registro de suas práticas. Para caracterizá-las usaremos o termo sociedades ágrafas. Mesmo não tendo deixado registros escritos, esses grupos humanos desenvolveram formas de educar e transmitir conhecimentos, como é o caso das sociedades indígenas originárias do território que hoje é o Brasil.

Como veremos de forma mais aprofundada adiante, essas sociedades faziam uso (e ainda fazem) de diferentes práticas para educar e passar adiante sua sabedoria. Com isso, podemos, aos poucos, desconstruir a percepção de que a educação está diretamente vinculada à cultura escrita ou a instituições formais como a escola.

PLAY NO CONHECIMENTO

Embora façamos parte de um país etnicamente diverso, nem todos os setores da sociedade evidenciam essa pluralidade. É o caso da educação – apenas recentemente representantes indígenas passaram a integrar o quadro dessas instituições. Ouça o podcast para saber mais sobre esse tema!

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VAMOS RECORDAR

Você se lembra das aulas de História? É por meio delas que temos, de modo formal, o primeiro contato com outras civilizações e suas invenções. Assim, descobrimos diferentes modos de vida e somos convidados a imaginar o mundo de acordo com elas. Conhecemos as primeiras civilizações situadas na região da Mesopotâmia, no Oriente Médio. Foi nesse espaço que os grupos humanos passaram a viver de forma mais complexa, criando estruturas e tecnologias que mediassem o convívio coletivo. Entre essas, destacamos o desenvolvimento da escrita pelos sumérios e do alfabeto pelos fenícios. Elas foram fundamentais para o desenvolvimento político, social e econômico e, no decorrer do tempo, serão também essenciais para passar adiante conhecimentos, formando processos educativos sustentados pela escrita. Também somos apresentados a povos que não desenvolveram escrita, mas deixaram outros legados e formas de (re)produzir saberes. Todo esse cenário histórico desenhado nessas breves linhas se tornou fundamental para a humanidade. Agora é a vez de retomar esses assuntos e expandir seus conhecimentos!

Desenvolva seu Potencial

AS PRIMEIRAS FORMAS DE EXPRESSÃO E O SURGIMENTO DA ESCRITA 

O recurso da escrita está presente em grande parte de nossas atividades cotidianas. É por meio da escrita que nos comunicamos, informamos, manifestamos sentimentos e emoções, entre tantas outras possibilidades. De tão presente em nossas vidas, poucas vezes paramos para pensar como essa tecnologia foi desenvolvida e como foi se difundindo ao longo da História. No contexto atual, nos deparamos com várias formas de cultura escrita: as do livro impresso, as das telas de smartphones, tablets e computadores, assim como formas de escrita mais fluidas, que não recorrem a letras e palavras como forma de expressão. 

Um bom exemplo para entender essas formas de escrita são os emojis, imagens que transmitem ideias ou mesmo frases completas, conforme seu uso. Apesar de ser um recurso de escrita amplamente utilizado na atualidade, esse modo de se expressar há muito já existe entre os seres humanos. Com isso, queremos destacar que as manifestações escritas podem ser de muitas formas, de modo que seus usos e formas de apresentação variam de acordo com o contexto sócio-histórico.

A maior parte da história humana neste planeta está vinculada ao período comumente denominado pré-história ou história pré-escrita. Essa divisão tradicional da História em eras trata-se de uma didatização por parte dos historiadores, não de uma verdade absoluta. Podemos olhar para o passado da humanidade a partir de outras premissas. Embora esse não seja o enfoque de nossos estudos, é importante mencionar tais questões para que você, estudante, compreenda de uma maneira mais profunda como se organiza a historiografia.

A história pré-escrita tem como característica ser uma extensa etapa de nosso passado, e para ser melhor estudada e compreendida, pode ser subdividida em três grandes períodos: Paleolítico, Mesolítico e Neolítico. Essa subdivisão se dá como base nas particularidades e transformações observadas pelos pesquisadores em cada período. Para estudar a história humana antes do desenvolvimento da escrita, é preciso o trabalho de arqueólogos, profissionais que se ocupam de investigar práticas e modos de vida de outrora por meio de vestígios como fósseis, restos de cerâmica, resquícios de armas ou mesmo alimentos que podem ser encontrados em escavações no subsolo terrestre. 

Os processos de buscas e achados desses indícios ocorrem em lugares chamados de sítios arqueológicos, espaços que, como aponta Pinsky (2003), apresentam elementos potentes para a compreensão de nossa História. O trabalho minucioso da pesquisa arqueológica em parceria com historiadores e outros profissionais das Ciências Humanas permite avançar no conhecimento de práticas, rituais e modo de vida de nossos antepassados. Portanto, a construção do conhecimento sobre aqueles que nos antecederam não depende apenas daquilo que foi registrado por meio da escrita.

Apesar disso, é preciso chamar atenção para a arte rupestre (Figura 1), inscrições feitas nas paredes de cavernas encontradas por pesquisadores em diferentes locais do mundo. Embora não consistam em palavras, esses registros permitem discutir vários elementos desse período histórico, assim como pode-se inferir que evidenciam uma preocupação com o ato de deixar marcas para a posteridade, revelando um processo de tomada de consciência por nossos antepassados, assim como o desenvolvimento de técnicas que permitiram a produção de tais registros.

Figura 1 – Arte Rupestre

Descrição de imagem: a imagem fotográfica apresenta uma arte rupestre. Nela, podemos observar, pintadas em rochas, expressões artísticas que representam, do lado esquerdo, diversas figuras hominídeas. Também vemos animais parecidos com elefantes ao lado direito. A pintura possui coloração alaranjada. Fim da descrição.

A arte rupestre, presente em diversas partes do mundo, revela uma faceta significativa do passado da humanidade, demonstrando a capacidade de nossos antepassados de expressar ideias e sentimentos através de símbolos e imagens. Essas manifestações artísticas, além de serem belas e complexas, fornecem pistas valiosas sobre a vida cotidiana, as crenças e a cosmovisão dos povos antigos. A arte rupestre, portanto, complementa os estudos arqueológicos, oferecendo uma visão mais rica e completa sobre o período pré-histórico e a evolução da humanidade.

A pré-história, apesar de preceder a invenção da escrita, não é um período isolado e desconectado da história da humanidade. As descobertas arqueológicas e a análise da arte rupestre demonstram a existência de uma rica e complexa cultura material e simbólica nos tempos antigos. A compreensão da pré-história é fundamental para entendermos nossas origens, nossas raízes e os processos que moldaram as sociedades atuais. A história não se inicia com a escrita, mas com a própria humanidade, e a pré-história nos oferece as chaves para desvendar esse passado ancestral.

EU INDICO

Imagine um portal para o passado, escondido na selva amazônica. Lá, em um paredão rochoso de 13 quilômetros de extensão, encontra-se uma vasta coleção de pinturas rupestres, datadas de 12.600 anos atrás. Essas obras de arte, criadas pelos primeiros povos que habitaram a região, oferecem um vislumbre da vida nesse período, revelando sua relação com a natureza e costumes. Em 2019, uma equipe de pesquisadores liderada pelo arqueólogo uruguaio José Iriarte desbravou essa região selvagem e desvendou os segredos por trás dessas pinturas. As imagens retratam cenas da vida cotidiana, incluindo a caça, a pesca e a coleta de alimentos. Impressiona também a presença de animais extintos, como preguiças gigantes e cavalos de linhagens antigas, oferecendo pistas valiosas sobre a megafauna da época. Acesse a assista agora: https://youtu.be/Qb4nr6o-884.

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Como vimos anteriormente, a história pré-escrita é tradicionalmente dividida em três grandes fases, de modo que é no período denominado de Neolítico, que vai de 10.000 a.C. a 3.000 a.C. (datas aproximativas), que o modo de vida de nossos ancestrais vai sistematicamente se complexificando. Nesse momento, os grupos humanos já haviam desenvolvido conhecimentos que facilitaram sua relação com a natureza, tais como instrumentos de corte, técnicas de plantio e manejo de alimentos, promovendo assim um modo de vida que não requeria o deslocamento constante. As inovações, sobretudo na agricultura, vão produzir um modo de vida em que os seres humanos passam a se fixar em determinadas localidades e, com isso, sentir a necessidade de criar formas de habitar e administrar o espaço que ocupam.

É nesse cenário que se desenvolvem as primeiras formas de escrita. De um modo geral, não é possível indicar o modo e o lugar preciso em que inovações como essa aconteceram. Ao se espalharem pelo planeta, os seres de nossa espécie ocuparam diferentes espaços e criaram formas de se adaptar a ele conforme suas demandas e necessidades. Assim, não podemos imaginar que as transformações pelas quais a humanidade passou (e passa) aconteçam de forma simultânea, gerando reflexos em todos de maneira uniforme. 

O modo de vida que levamos hoje, caracterizado por aspectos como sedentarismo, organização de um território administrado pelo Estado e suas leis, divisão dos modos de produção e trabalho, bem como comunicação mediada por registos escritos, nos remete à região do Crescente Fértil, que hoje compreende a região da Palestina, Jordânia, Israel, Líbano, Kuwait e Chipre, além de partes do Egito, Síria, Irã e Turquia. As cidades mais antigas se desenvolveram em torno dos rios dessa região, o que faz com que ela seja chamada de berço da civilização. Na localidade chamada de Mesopotâmia, a terra entre rios, foi onde se desenvolveu a forma de escrita mais antiga que temos conhecimento até o momento, a escrita cuneiforme, atribuída a civilização suméria.

Os sumérios desenvolveram as primeiras organizações complexas das quais temos notícias até o momento. Instalados na região do atual Iraque, são considerados os primeiros povos a fazer grandes construções como templos e palácios, assim como criar e aperfeiçoar modos de lidar com os recursos hídricos da região, o que possibilitou avanços econômicos consideráveis. Nesse sentido, a economia suméria se baseava na produção agrícola a partir do cultivo de grãos e cereais como a cevada. No âmbito da pecuária, criavam porcos, ovelhas e cabras, além da produção das cidades, que se concentrava em produtos manufaturados e artesanais. Nesse estágio de desenvolvimento avançado, emerge a necessidade de desenvolver um mecanismo de controle para gerir os excedentes produzidos, o que pode vir a explicar a criação de registros escritos.

A escrita cuneiforme (Figura 2) consistia em talhar inscrições em forma de símbolos em uma tábua de barro. Esses símbolos são chamados de pictogramas, e sua imagem representa um objeto ou ideia por meio de desenhos. Assim, para produzir a materialidade que permitia a produção dos registros escritos, era necessário moldar o barro no formato de uma pequena tábua e usar um acessório que permitisse realizar a inscrição no barro umedecido. O instrumento usado para isso é chamado de cunha (por isso, escrita cuneiforme). 

Após a produção da escrita, a tábua deveria ser deixada para secar e, caso precisasse ser usada novamente, bastava molhar sua superfície e fazer novas inscrições. Para evitar que textos importantes fossem alterados, as tábuas eram cozidas em forno, o que impedia sua alteração.

Figura 2 – Escrita cuneiforme

Descrição de imagem: a imagem fotográfica apresenta uma tábua de barro antiga, com escrituras em uma língua não identificável. A parte mais preservada do objeto está do lado direito, embora tenha pontos apagados e também rachaduras. O lado esquerdo possui muitos buracos e rachaduras, deixando uma lacuna no texto da escrita cuneiforme. Fim da descrição.

A escrita cuneiforme, com seus pictogramas e cunhas, representa um marco fundamental na história da comunicação humana. A evolução desses símbolos, inicialmente pictóricos, para representações mais abstratas e fonéticas, demonstra a capacidade humana de adaptar e aprimorar os sistemas de escrita. A praticidade do barro e a durabilidade da cerâmica contribuíram para a preservação de registros históricos inestimáveis, permitindo-nos desvendar os muitos aspectos do cotidiano das civilizações antigas.

Os escritos deixados pelas civilizações que nos antecederam nos ajudam a desvendar fragmentos de um passado que seria inacessível se eles não existissem. Assim, ao decifrar parte dos registros deixados pelos sumérios, acessamos elementos do cotidiano dessa civilização que promovem uma aproximação com o modo de vida que levavam. 

EU INDICO

Arqueólogos ingleses decifraram alguns dos registros escritos dos sumérios e encontraram correspondências que revelam desejos, insatisfações e ambições por parte da população. Ficou interessado? Para saber mais, leia a matéria Os 4 segredos incríveis revelados ao se decifrar escrita cuneiforme de 5 mil anos, da BBC: https://www.bbc.com/portuguese/geral-59882486.

Outro código de escrita desenvolvido na antiguidade são os hieróglifos. Utilizado pelos egípcios, consiste em um conjunto de pictogramas registrados em papiro, um material semelhante ao papel, feito a partir de uma planta homônima. No decorrer dos tempos, com a expansão da civilização e suas práticas comerciais e administrativas, a escrita egípcia foi se complexificando e se tornando essencial para a manutenção desse povo. Apesar de a escrita se tornar extremamente importante para as civilizações do Crescente Fértil, sua difusão era restrita, de modo que seu aprendizado e uso ficava ao encargo dos escribas.

Os escribas eram sujeitos da elite da sociedade egípcia que se propunham a trabalhar em questões administrativas do Estado. Passavam por uma formação restrita a pouquíssimos na sociedade egípcia: aprender a lidar com os códigos de escrita. Em uma sociedade agrícola, aprender tais conhecimentos não é tarefa primordial. Assim, ela fica restrita a alguns indivíduos que usam essa habilidade em diferentes funções. O domínio desse saber, atrelado a um modo de vida que não requeria o trabalho manual abaixo das intempéries do clima, conferia ao escriba uma posição de status na sociedade. Manacorda (1992, p. 21) aponta algumas das atribuições do executor desse ofício:

[...] escriba é aquele que lê as escrituras antigas, que escreve os rolos de papiro na casa do rei, que, seguindo os ensinamentos do rei, instrui seus colegas e guia seus superiores, ou que é mestre das crianças e mestre dos filhos do rei, que conhece o cerimonial do palácio e é introduzido na doutrina da majestade do faraó. 

A partir do excerto anterior, é possível inferir que o escriba dispunha de certo poder nas sociedades antigas, pois detinha um saber singular. Cabia ao escriba formar seus sucessores, ensinando aos aprendizes seu ofício. Em muitos casos, o trabalho do escriba passava a ser este: perpetuar esse conhecimento formando novos escribas. Nesse caso, conforme Manacorda (1992), ele se torna um mestre, alguém responsável pelo processo educativo daqueles que ambicionavam o cargo.

A escrita hieroglífica, domínio dos escribas, conferia a esses indivíduos um status privilegiado nas sociedades antigas. Ao deter o conhecimento da escrita e da administração, os escribas ocupavam posições de destaque, atuando como intermediários entre o poder divino e o povo. Seu papel como mestres e guardiões do conhecimento os tornava figuras influentes e respeitadas, moldando a cultura e a sociedade egípcia. A escrita, nesse contexto, era mais do que um sistema de comunicação; era um símbolo de poder e sabedoria, reservado a uma elite letrada. Ao controlar o acesso à escrita, os escribas garantiam seu próprio poder e perpetuavam as hierarquias sociais. A formação rigorosa e a transmissão oral do conhecimento asseguravam que o saber permanecesse concentrado nas mãos de poucos, consolidando assim o poder da elite governante. Nesse sentido, a escrita era um instrumento de controle social e um meio de legitimar o poder estabelecido.

A escrita era um instrumento de controle social 

Outra civilização da região do Crescente Fértil foi responsável por uma inovação na comunicação escrita: os fenícios. Esse povo habitou o território do atual Líbano e foram grandes navegadores e comerciantes. Ao desbravar o Mediterrâneo em nome do comércio de mercadorias diversas, os fenícios estabeleceram contatos com diversos outros povos e criaram um código de escrita mais sucinto em relação à hieroglífica e cuneiforme, “a primeira produção do alfabeto ocorre em Biblos (um dos centros da Fenícia), que deu, aliás, nome ao livro (biblos em grego), pelas indústrias de papiro que ali se encontravam” (Cambi, 1999, p. 69). 

Assim, atribui-se aos fenícios o desenvolvimento de um alfabeto composto por símbolos que representavam o som de consoantes, de modo que, combinados, formavam palavras que poderiam ser lidas e interpretadas de modo mais dinâmico do que as outras formas de escrita que requeriam o domínio de inúmeros símbolos e a interpretação destes de acordo com o contexto.

É importante mencionar que o desenvolvimento de códigos de escrita é um dos elementos que será responsável por sustentar o que chamamos de civilização, estágio da história humana caracterizado por uma complexa organização dos grupos humanos. É por meio da escrita que serão estabelecidos conjuntos de leis e normas que regem o convívio coletivo, assim como é por meio da escrita que as transações econômicas serão registradas e possivelmente expandidas. Nesse período de expansão econômica é que o alfabeto fonético fenício será difundido e chegará até a Grécia, onde sofrerá modificações e influenciará vários outros povos do Ocidente.

Com isso, vemos que a invenção do alfabeto fenício representou um salto significativo na história da escrita, simplificando a comunicação e facilitando a troca de informações. A praticidade e a eficiência desse novo sistema de escrita, em comparação aos complexos sistemas hieroglífico e cuneiforme, o tornaram um instrumento ideal para os fenícios, povo de comerciantes e navegadores. A disseminação do alfabeto fenício ao longo das rotas comerciais, em especial para a Grécia, impulsionou a evolução da escrita e a expansão do conhecimento, moldando as civilizações do Ocidente e estabelecendo as bases para a escrita que utilizamos até hoje.

Em suma, a história da escrita é uma jornada que nos revela a complexidade da experiência humana. Desde os primeiros pictogramas até a era digital, a escrita tem sido um alicerce para o desenvolvimento das civilizações, moldando nossas sociedades, culturas e formas de pensar. A invenção dos alfabetos, como o fenício, impulsionou a disseminação do conhecimento e a expansão do comércio, conectando povos distantes e promovendo o intercâmbio cultural. Embora as tecnologias evoluam e as formas de escrita se adaptem a novos contextos, a essência da escrita como ferramenta de comunicação, registro e expressão permanece inalterada, garantindo sua perenidade ao longo dos tempos.

VOCÊ SABE RESPONDER?

A evolução da humanidade é um processo gradual em que descobertas e invenções produziram novas relações com o espaço. Assim, reflita: de que forma a invenção da escrita cuneiforme e a criação dos alfabetos influenciaram a transição das sociedades caçadoras-coletoras para as civilizações complexas?

SOCIEDADES ÁGRAFAS, CONHECIMENTOS E PRÁTICAS EDUCACIONAIS

Ao se espalhar pelo globo terrestre, os grupos humanos que partiram do continente africano desenvolveram modos de ser e estar no mundo de acordo com o contexto que passaram a habitar. Conforme mencionado anteriormente, na região do Crescente Fértil, se desenvolveram as primeiras civilizações, responsáveis por criações que são referências ainda nos dias de hoje. No entanto, o desenvolvimento e transformação da espécie humana não se dá de maneira linear e uniforme. 

Desse modo, os grupos humanos que se espalharam pelo continente americano, por exemplo, estabeleceram relações com o espaço geográfico com características específicas, que se diferem das civilizações até aqui tratadas. Em geral, podemos dizer que as populações que habitaram as Américas eram ágrafas, ou seja, não desenvolveram um sistema próprio de escrita alfabética.

No entanto, não é correto afirmar que as populações que ocuparam o continente americano não desenvolveram registros escritos. De acordo com o que estudamos até aqui, existem sítios arqueológicos com vestígios de inscrições feitas por esses povos. Na maioria das vezes trata-se de imagens, cenas do cotidiano e modo de vida desses indivíduos, de modo que, embora não consistam em um código de escrita propriamente dito, permitem acessar vários elementos desse período histórico. 

Além disso, pesquisas arqueológicas encontraram vestígios de registros pictográficos realizados por povos da Mesoamérica. É o caso do bloco de Cascajal, um artefato de pedra marcado com sinais que remetem à escrita pictográfica, atribuídos ao povo Olmeca, habitante da região onde o material foi encontrado. Além disso, existem vestígios semelhantes deixados por outros povos dessa região da América, como os Maias e Astecas. Ambos deixaram inscrições pictográficas encontradas em pedras ou cerâmicas.

Os povos que ocuparam o sul do continente americano, mais especificamente o território que hoje corresponde ao Brasil, não desenvolveram um sistema de escrita próprio, o que não significa que não possuam práticas educacionais ou tenham desenvolvido conhecimentos. A partir daqui, falaremos das populações originárias do território brasileiro e suas formas de promover práticas educativas, transmissão de conhecimentos e regras sem o uso de uma cultura escrita.

As populações indígenas do Brasil são extremamente plurais e mereceriam uma abordagem própria para que tamanha diversidade fosse contemplada. Na impossibilidade de fazer isso, falaremos dos pontos em comum do modo de vida dessas populações, porém enfatizando que são povos com cosmovisões singulares e particularidades específicas, como pontua Bergamaschi (2011). Nos deteremos em falar dos aspectos relativos à educação e transmissão de conhecimento entre esses grupos.

De um modo geral, as sociedades originárias do território que hoje é o Brasil não criaram instituições para gerir sua organização social. Não há um poder centralizado que organize e administre questões relacionadas à economia, educação, saúde e afins. Trata-se de um modo de vida onde os grupos possuem lideranças locais que compartilham com outros membros dos grupos decisões, rituais e demais atividades. Historicamente, esses povos vivem a partir do contato com a natureza, extraindo dela meios para sua sustentação e abrigo. 

A história pré-colonial de nosso país evidencia que a diversidade de povos que aqui habitou foi responsável pela biodiversidade da flora do espaço geográfico. Ao se deslocarem nas matas, abriram caminhos que chegaram a conectar o território brasileiro com o Peru. Com isso, podemos deduzir que muitos são os conhecimentos desenvolvidos por esses povos, a forma de o transmitir é que se dá de forma diversa dos demais estudados até o momento.

As populações indígenas, em sua maioria, não possuem a figura do mestre, aquele que fica responsável por um processo de educação formal. As práticas educativas acontecem a partir do convívio coletivo e não recaem em torno de conteúdos específicos, mas, sim, em saberes essenciais para o modo de vida do grupo, bem como seus valores e respeito à sua ancestralidade. 

A oralidade é um recurso extremamente importante para a manutenção desses saberes, pois é por meio do diálogo e da transmissão de histórias que a cultura desses povos vai se (re)produzindo). Desse modo, não há um momento específico para começar a educar uma criança, pois esse é um processo contínuo partilhado pelo coletivo.

Com a chegada dos exploradores portugueses, esse modo de vida sofrerá duras alterações, e as práticas de educação formal farão parte das estratégias adotadas pelos europeus para facilitar a ocupação do território. A catequização dos nativos fará com que passem a ter uma outra rotina, produzindo um outro modo de ser e estar no mundo, estando este de acordo com a visão portuguesa. Como aponta Paiva (2003, p. 43):

O que representava a alfabetização para os jesuítas a ponto de quererem, desde o início, alfabetizar os índios, quando nem em Portugal o povo era alfabetizado? Mais do que o resultado desta intenção, interessante é observar a mentalidade. As letras deviam significar adesão plena à cultura portuguesa. Quem fez as letras nessa sociedade? A quem pertencem? Pertencem à corte, como eixo social.

Com isso, a alfabetização, o ensino de música, os ritos religiosos presentes na instituição escolar nesse momento facilitariam o projeto português e formariam uma sociedade homogênea, alinhada aos interesses do colonizador. Durante o período colonial, os processos educativos desenvolvidos pelos jesuítas sustentavam-se na perspectiva da assimilação por parte dos nativos. Essa visão de que o indígena deve incorporar o modo de vida das sociedades não indígenas irá prevalecer no período pós independência, de modo que os projetos previstos para essas populações pelo estado brasileiro também irão operar nessa perspectiva.

INDICAÇÃO DE FILME

Desmundo

Uma produção interessante sobre o modo de vida e contexto colonial é a obra Desmundo (2002), de Alain Fresnot, ambientado em 1570. No decorrer do filme, é possível visualizar aspectos do espaço geográfico e as transformações nele promovidas, bem como o trato dado a indígenas e a mulheres portuguesas encomendadas para casamento no além-mar. A obra consiste em um importante recurso para compreender aspectos do processo colonial que nem sempre são abordados ao longo da formação escolar.

A relação do estado brasileiro com as populações indígenas é atravessada por inúmeros impasses, sendo um deles a questão educacional. É imperativo que as populações originárias tenham acesso à alfabetização e sejam vinculadas a espaços educativos formais. Ao mesmo tempo, também é imperativo que possam manter suas culturas e costumes, afastando-se da perspectiva da assimilação, que tantos apagamentos promoveu. 

Em um cenário recente, as discussões a respeito da educação indígena defendem instituições escolares de caráter intercultural para essas populações. Sobre esse modelo de escola, Bergamaschi (2011, p. 413) diz:

Perscrutando o movimento de algumas atuais escolas indígenas, o que ressalta é que não há uma transmissão unilateral de práticas escolares da instituição ocidental para as comunidades indígenas. O que aparece é um movimento de recriação, pois cada povo indígena se apropria da escola e a produz segundo sua cosmovisão. Assim, como circulam na escola conhecimentos do mundo ocidental, existe uma porta aberta para circular as tradições de cada cultura. 

Uma escola intercultural que permita a troca de saberes entre indígenas e não indígenas ainda é um desafio. A história da educação evidencia avanços nesse sentido, como as políticas afirmativas para inserção das minorias no ensino superior e a chegada de indígenas como professores e pesquisadores nos espaços universitários.

Ao contrário do que possa parecer, os conflitos entre indígenas e sociedade não indígena não ficaram no passado. Ao longo do tempo, eles assumiram novas formas e contornos, mas seguem permeando a existência desses povos, por exemplo, as disputas pelas terras indígenas. Boa parte da sociedade brasileira ainda tem uma visão bastante estereotipada a respeito dessas populações, desconhecendo seus conhecimentos e culturas. Isso, entre outros fatores, corrobora para o quadro de conflito entre as partes. 

PENSANDO JUNTOS

A partir dessas colocações e de seus conhecimentos, reflita: quais os principais desafios e oportunidades para a implementação de escolas interculturais no Brasil, que respeitem as especificidades dos povos indígenas e promovam a troca de saberes entre diferentes culturas?

A difusão da cultura escrita e seus impactos

Como vimos até aqui, a história da cultura escrita é permeada por formas de expressão que variam de acordo com o espaço e o contexto em que foram desenvolvidas, não se tratando assim de um processo evolutivo linear, como o senso comum costuma imaginar. No decorrer da História, a escrita foi usada para diferentes fins: controle econômico, administrativo e como mecanismo de poder, como no caso da colonização das Américas. 

Nesse sentido, é preciso destacar o papel da prensa móvel em meados do século XV, que irá acelerar a difusão de conteúdo escrito. A lógica de funcionamento desse invento remete ao instrumento de impressão com componentes móveis desenvolvido pelos chineses por volta do ano 1040. Com as modificações feitas pelo ourives Johannes Gutenberg, o uso da prensa ganhará força na Europa. 

A partir desse momento, a difusão da cultura escrita irá ganhar uma proporção nunca antes vista. Se até então os documentos escritos dependiam de cópias manuais, a prensa móvel fará com que se possa reproduzir vários exemplares de uma mesma obra em um espaço de tempo muito mais curto. Desse momento em diante, a cultura escrita passa a movimentar todo um mercado de livros, autores, editores e livreiros.

A revolução iniciada por Gutenberg, no entanto, não se encerrou com a prensa móvel. A era digital, com a invenção da internet e a popularização dos computadores, trouxe novas possibilidades para a produção e disseminação de textos. A escrita, antes confinada a papéis e livros, agora se manifesta em telas, blogs, redes sociais e plataformas digitais. 

Essa transformação profunda impacta a forma como lemos, escrevemos e consumimos informação, desafiando conceitos tradicionais como autoria, propriedade intelectual e a própria noção de livro. A democratização do acesso à informação, por um lado, possibilita uma maior diversidade de vozes e perspectivas, mas, por outro, levanta questões sobre a qualidade da informação e a disseminação de conteúdos falsos.

EM FOCO

Estudante, assista à aula referente a este tema!

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Novos desafios

A jornada da escrita, desde as primeiras pinturas nas paredes das cavernas até a complexa rede digital de hoje, é um testemunho da evolução humana e da nossa capacidade de comunicar, registrar e transmitir conhecimento. O percurso percorrido, desde as tábuas de argila até os smartphones, revela a intrincada relação entre a escrita e a construção das sociedades. Ao longo desse percurso, a escrita não foi apenas um meio de comunicação, mas também um instrumento de poder, um símbolo de status e uma ferramenta para a construção de identidades culturais. A escrita cuneiforme, os hieróglifos egípcios e o alfabeto fenício, cada um a seu modo, moldaram as civilizações que os criaram e influenciaram as que vieram depois.

A invenção da imprensa de Gutenberg revolucionou a forma como as ideias se espalharam, democratizando o acesso ao conhecimento e impulsionando o desenvolvimento do mundo moderno. No entanto, na atualidade, a era digital trouxe uma nova revolução, com a escrita se tornando cada vez mais visual, interativa e instantânea. A proliferação de emojis, memes e outras formas de comunicação visual demonstra como a escrita continua a se adaptar às novas tecnologias e às necessidades das sociedades em constante transformação. 

Lembre-se: a história da escrita é um campo vasto e em constante evolução. Ao se atentar e aprofundar-se nesse tema, você estará contribuindo para a construção de um futuro mais informado e conectado. No decorrer de sua trajetória profissional, você irá se deparar com muitos desafios no que diz respeito às novas tecnologias e seus impactos nas formas de comunicação e expressão. Conhecer aspectos históricos dessa temática lhe ajudará a pensar estratégias para lidar com esses obstáculos e construir uma prática que dialogue com as necessidades do estudante e as demandas do contexto.

VAMOS PRATICAR?

Chegou o momento de testar o conhecimento adquirido até aqui! Para isso, por favor, participe da autoavaliação que preparamos especialmente para você. São apenas 3 questões e ao final um feedback.

1. A chamada arte rupestre é um dos termos dados às mais antigas representações artísticas conhecidas, as mais antigas datadas do período Paleolítico Superior (40.000 a. C.), gravadas em abrigos ou cavernas, em suas paredes e tetos rochosos. De acordo com os cientistas, o segredo para entender o salto dado pelos homens rumo à linguagem pode ter começado no interior desses pequenos espaços (Nóbrega, 2018).

Com base no texto, a arte rupestre:

I. Surgiu no período Paleolítico Superior, e suas representações limitavam-se a animais e cenas de caça.
II. Seus pigmentos eram exclusivamente de origem mineral, o que garantiu a preservação das pinturas por milênios.
III. É considerada a primeira manifestação artística humana e pode ter sido fundamental para o desenvolvimento da linguagem. 

É correto o que se afirma em:

2. "Quanto à cultura, fundamental foi o desenvolvimento dos conhecimentos técnicos (de cálculo, de escrita, mas também ligados aos problemas da navegação). A descoberta mais significativa dessa cultura foi a do alfabeto, com 22 consoantes (sem as vogais), do qual derivam o alfabeto grego, e depois os europeus, e que aconteceu pela necessidade de simplificar e acelerar a comunicação" (Cambi, 1999, p. 68). O fragmento discute o impacto do desenvolvimento cultural dos fenícios, com destaque para a criação do alfabeto e sua importância para a comunicação. 

Com base no excerto, assinale a alternativa que melhor interpreta a importância da criação do alfabeto pelos fenícios:

3. Abordar a história da educação dos povos indígenas é, sem dúvida, abordar a história de cada um desses grupos, bem como suas peculiaridades, engendradas no interior de cosmologias próprias (Bergamaschi, 2011).

Com base no excerto, pode-se afirmar que a história da educação indígena no Brasil:

I. É homogênea e uniforme para todos os povos indígenas, visto que compartilham a mesma cultura e cosmologia.
II. Deve ser analisada de forma individualizada, considerando as especificidades culturais e cosmológicas de cada povo.
III. É marcada pela imposição de um modelo educacional único, desconsiderando as tradições e conhecimentos indígenas.
IV. É um tema absolutamente relevante para a compreensão da história e da cultura dos povos indígenas.

É correto o que se afirma em:

REFERÊNCIAS

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